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Monumentos da barbárie cairão por nossas mãos: Rosalina Buccironi Silva presente!

Por Raissa Dantas

 

Ato do 8 de março de 2018 em que foi movido o abaixo-assinado pela retirada do nome de Tubal Vilela da praça central de Uberlândia | Foto: Raissa Dantas

 

No início do mês de abril de 2019 a Câmara de Vereadores da cidade de Uberlândia foi notificada pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG), por intermédio da Promotoria de Justiça do Combate à Violência, com uma recomendação explícita para que o nome do feminicida Tubal Vilela seja retirado da principal praça da cidade. Nessa semana o SINTET-UFU protocolou 27 ofícios na Câmara de Vereadores cobrando uma ação efetiva por parte dos legisladores municipais sobre a questão.

Walter Benjamin, filósofo e ensaísta alemão, escreveu sobre questões culturais das sociedades em diversos livros de sua obra e tomo parte de suas contribuições para refletir sobre a violenta presença da “homenagem” a Tubal Vilela na praça central de Uberlândia e a relevância de disputarmos esse território físico e simbólico para a memória das mulheres de nossa história.

Benjamin afirma que “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”, e sua afirmação se dá em razão de que os documentos de cultura e os marcos simbólicos que estão espalhados em nossa sociedade – sejam em forma de monumentos, organização das cidades, nomes de ruas, placas, bustos, batismos de espaços públicos, homenagens de toda sorte – estão intimamente ligados às memórias de setores dominantes. Memórias que querem se impor enquanto história incontestável de dado agrupamento social, de dado espaço, de dada temporalidade. Esse processo, sempre seletivo, envolve lembranças e, especialmente, esquecimento.

No tocante específico da Praça Tubal Vilela, devemos compreender que o homem que se pretende eternizado, presente no contexto e no imaginário atual, é o político e empresário que promoveu crescimento, desenvolvimento econômico e social de uma cidade e região. As motivações políticas são de várias ordens, suponho: legitimar uma linha de continuidade nas práticas e nos grupos dominantes locais; naturalizar as desigualdades, afinal, o crescimento e desenvolvimento econômico de uma região se deu às custas da força de trabalho explorada e precarizada de muitos trabalhadores que enriqueceram, ou permitiram uma concentração ainda mais significativa, das riquezas da elite regional; promover dominação simbólica em que a história de muitos é apagada por mecanismos institucionais e legais que, no lugar de promoverem o conhecimento e a consciência histórica, erguem monumentos que ao longo do tempo se transformam em verdadeiras barreiras que separam grupos, pessoas, classes, organizações da história como processo, substituindo por uma história como “mito”, ou seja, sem contradições, sem tensões, sem conflitos.

Walter Benjamin reflete que “os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. (…) Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão”. E em tempos de debate e aprofundamento de reflexões sobre o direito à memória, verdade, justiça, reparação, cidadania etc., é inadmissível que torturadores, algozes, assassinos, exploradores e outros sejam cultuados – especialmente via políticas e investimentos públicos, coletivos – em perspectiva distorcida. Desconfio que uma parcela numerosa da sociedade não se reconheceria nas práticas e nos valores de certos sujeitos que são apresentados como heróis da coletividade. Dentre eles, destaco Tubal Vilela, assassino de Rosalina Buccironi Silva, sua então esposa que à época tinha 19 anos, estava grávida de três meses e era mãe de duas crianças.

Se aceitamos certas monumentalizações das memórias dos vencedores, em larga medida é porque na correlação de forças, as operações de silenciamento foram bem sucedidas. Nesse sentido, manifestações e ações contemporâneas como as protagonizadas pela Subcomissão Regional da Verdade “Ismene Mendes” e do MPMG que visam à revisão de certos marcos são muito importantes, diria fundamentais, inclusive para rever o espectro da memória, da história e do patrimônio cultural em perspectiva conservadora que dominou e ainda domina os espaços públicos. Sendo parte interessada pela recomendação emitida pelo MPMG, questiono minhas pares, mulheres que residem em Uberlândia, se não se sentem afrontadas, desrespeitadas, violentadas e humilhadas tendo como “Tubal Vilela” o nome da principal praça de nossa cidade. É inconcebível que a Câmara de Vereadores da cidade de Uberlândia ignore esse processo e prolongue ainda mais a barbárie monumentalizada bem em frente aos nossos olhos.

Sigo em acordo com Benjamin sobre o fato de que é impossível refletir sem horror aos bens culturais sabendo que eles monumentalizam o nosso massacre, nesse caso, representado pela violência contra a mulher e o sentimento coletivo de vulnerabilidade sócio-política alimentado pela estruturação da sociedade machista e patriarcal que, com seus monumentos, alimentam uma consciência histórica da barbárie.

 

Esse artigo foi escrito com as contribuições de Roberto Camargos e do texto “Teses sobre o conceito da história”, de Walter Benjamin (1940), traduzido por Sérgio Paulo Rouanet (disponível em https://bit.ly/2MURHC2).

12 de abril de 2019